O movimento de entrada de venezuelanos pela fronteira de Roraima registrou uma queda expressiva neste ano. Levantamento do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome mostra que, nos primeiros treze dias de janeiro de 2026, o fluxo de migrantes e refugiados caiu mais de 50% na comparação com o mesmo período de anos anteriores. O dado foi confirmado durante visita do ministro Wellington Dias a Boa Vista, quando ele verificou pessoalmente a situação dos abrigos administrados pela Operação Acolhida.
Os números por trás da redução no fluxo migratório
De acordo com o monitoramento oficial, em 2026 foram contabilizadas 1.014 entradas de cidadãos venezuelanos pela cidade de Pacaraima, contra 2.121 pessoas registradas em 2025 no mesmo período, praticamente a metade. A tendência de queda já vinha sendo observada nos últimos dois anos, mas ganhou força em um contexto de tensão crescente entre Brasil e Venezuela, alimentada pelo deslocamento de frotas dos Estados Unidos pelo Mar do Caribe e por episódios que culminaram em um bombardeio à capital Caracas, no início de janeiro. Mesmo diante desse cenário, autoridades brasileiras afirmaram que não houve necessidade de acionar planos de contingência adicionais na região de fronteira.
A Operação Acolhida, criada em 2018 para organizar a chegada de refugiados e migrantes vindos da Venezuela, chegou a abrigar 12 mil pessoas simultaneamente em Boa Vista e Pacaraima. Atualmente esse número caiu para cerca de 5 mil abrigados, o que abriu vagas ociosas em torno de 30% nos três abrigos indígenas mantidos na capital roraimense. O general responsável pela coordenação da operação na região reforçou que o foco segue sendo o monitoramento da fronteira e a coibição de entradas irregulares, sem alterações relevantes no efetivo militar destacado para o estado.
O que essa mudança representa para Roraima
A diminuição no ritmo de chegadas tem impacto direto sobre a rotina de serviços públicos em Boa Vista e Pacaraima, cidades que historicamente concentraram a maior parte das solicitações de refúgio no Brasil. Dados do Observatório de Migrações Internacionais indicam que, entre 2015 e 2024, Roraima respondeu por 61,2% de todos os pedidos de abrigo registrados no país, com os venezuelanos representando a esmagadora maioria dos casos. Esse histórico ajuda a explicar por que qualquer oscilação no fluxo migratório repercute imediatamente na gestão de saúde, educação e assistência social do estado.
Ainda assim, é importante destacar que a redução recente não significa o fim do fenômeno migratório na região. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Roraima segue entre os três estados brasileiros que mais abrigam venezuelanos atualmente, ao lado do Amazonas e de Santa Catarina, somando mais de 100 mil pessoas nessa condição. O estado mantém, além disso, programas sociais próprios voltados a essa população, como o Restaurante Cidadão, que oferece milhares de refeições gratuitas diárias, e o programa Colo de Mãe, direcionado a gestantes em situação de vulnerabilidade.
A combinação entre queda no fluxo de entradas e manutenção de uma população migrante consolidada no estado aponta para um novo momento na relação entre Roraima e a crise venezuelana, marcado menos pela emergência humanitária dos primeiros anos e mais pela consolidação de políticas de acolhimento de médio prazo. O acompanhamento dos próximos meses, especialmente diante da instabilidade política na Venezuela, será decisivo para saber se a tendência de queda se mantém ou se reverte.
Fontes: Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social | Revista Cenarium | Correio Braziliense

