Existe um lugar no Brasil onde a realidade de uma crise humanitária internacional se traduz em números de matrícula escolar, em leitos hospitalares ocupados e em fila de atendimento social. Esse lugar é Roraima, o menor estado em população do país, e que nos últimos dez anos se tornou involuntariamente o palco central do maior fluxo migratório que o Brasil já enfrentou. Entender o que acontece aqui é entender uma das questões mais complexas da política pública nacional.
A porta de entrada que nunca fecha
Estima-se que cerca de 568 mil venezuelanos passaram a morar no Brasil a partir de 2015, devido às consequências da crise humanitária e econômica do país vizinho. Roraima, estado onde há o maior fluxo de migrantes venezuelanos, é o local que registrou o maior crescimento populacional no país em 2025. O ponto de passagem mais utilizado é o município de Pacaraima, localizado na BR-174, a fronteira seca que liga o estado ao vizinho venezuelano. A maioria dos migrantes entra por Pacaraima, fronteira entre Venezuela e Roraima, localizada a pouco mais de 200 quilômetros da capital Boa Vista. Segundo dados do OBMigra, o município recebeu mais de 96 mil novos migrantes venezuelanos apenas em 2025. ND MaisND Mais
Crescimento populacional e pressão nos serviços
O impacto demográfico é visível nos dados do IBGE. A população de Roraima cresceu mais de 46% em dez anos, chegando a 738.772 habitantes, tornando-se o estado com o maior aumento populacional do Brasil. Esse crescimento se deve principalmente à imigração venezuelana. O estado, que nunca teve uma rede de serviços públicos dimensionada para esse crescimento, viu hospitais, escolas e presídios chegarem ao limite. Entre 2022 e 2023, os venezuelanos responderam por 82% das solicitações de refúgio no Norte, com Pacaraima e Boa Vista sendo as cidades que mais acolheram esses pedidos. A maioria dos solicitantes tem perfil jovem, e em 2024 crianças e adolescentes representaram cerca de 40,3% das solicitações. Jornal A VerdadeCorreio Braziliense
A Operação Acolhida e a resposta do Estado brasileiro
Criada em 2018, a Operação Acolhida tem sido a principal resposta organizada do governo federal a esse fluxo. Coordenada pelo Ministério da Defesa, a operação funciona sob um modelo interagências, envolvendo mais de 120 instituições, incluindo agências da ONU, ONGs e órgãos federais, estaduais e municipais. Até meados de 2024, a operação recebeu mais de 125 mil venezuelanos distribuídos em mais de mil municípios brasileiros. A estratégia de interiorização, que realoca voluntariamente os migrantes para outras regiões do país, tem sido um dos pilares do programa e ajudou a reduzir a concentração em Boa Vista e Pacaraima. Correio Braziliense
O acordo de R$ 115 milhões e os desafios que permanecem
Em abril de 2026, a relação entre Roraima e a União deu um passo importante. Roraima e a União estabeleceram um acordo de R$ 115 milhões para custear os impactos da migração venezuelana, com os recursos direcionados para segurança pública, saúde, educação e sistema prisional. O processo corria no STF desde 2018. Ainda assim, o montante foi considerado insuficiente pelas autoridades locais, uma vez que o custo real da presença de quase 600 mil venezuelanos no estado ao longo dos anos supera em muito qualquer valor pontual. O que Roraima precisa é de um compromisso estrutural e contínuo, não apenas de um acerto de contas judicial. Para os moradores de Boa Vista que convivem diariamente com essa realidade, a discussão não é ideológica nem partidária: é a de uma capital que cresceu mais rápido do que suas ruas, seus hospitais e suas escolas conseguem absorver. ND Mais
Fontes: ndmais.com.br | gov.br/mds | correiobraziliense.com.br
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

